domingo, 19 de julho de 2009

Acordar, viver


Como acordar sem sofrimento?

Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.

Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?

Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?

Ninguém responde, a vida é pétrea.

C. Drummond de Andrade

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Traduzir-se

De início vou postar um escrito do Ferreira Gullar que muito me marcou. Entre as tantas facetas da vida, a arte é a que mais me instiga, bem como a que mais me consola; sendo assim, esse escrito, musicado por Adriana Calcanhotto, fala por mim nos meus muitos momentos de indiferença e indagação para comigo mesmo e com a vida:

Uma parte de mim é todo mundo
Outra parte é ninguém
Fundo sem fundo
Uma parte de mim é multidão
Outra parte estranheza e solidão
Uma parte de mim, pesa
Pondera
Outra parte, delira
Uma parte de mim almoça e janta
Outra parte se espanta
Uma parte de mim é permanente
Outra parte se sabe de repente
Uma parte de mim é só vertigem
Outra parte, linguagem
Traduzir uma parte noutra parte
Que é uma questão de vida ou morte
Será arte? Será arte?

Ferreira Gullar